
Estão abertas as inscrições para o vestibular de verão da Unisinos, com provas no dia 2 de Dezembro. No site do vestibular, você encontra a descrição do meu curso, que a partir do próximo semestre passará a ser noturno:
"Formação de Escritores e Agentes Literários
Noturno (03150) - 40 vagas
Títulação obtida: diploma em Curso Superior em Formação de Escritores e Agentes Literários
Duração do curso: 5 semestres
O curso tem o objetivo de formar escritores e agentes literários empreendedores e inovadores, com domínio de técnicas de linguagem e de mídia, sólida formação intelectual para interpretar o mundo, a tradição e a sociedade, e capacidade para criar, formular livros e mediar diferentes públicos, planejar negócios e desenvolver produtos nas diversas áreas do mercado editorial e do cenário cultural. O aluno deve matricular-se em pelo menos 180 horas das atividades previstas no semestre."
Quem se interessar já pode se preparar para as provas. Existem duas modalidades de ingresso via vestibular: o processo seletivo geral (redação e questões discursivas) e o processo seletivo alternativo, para pessoas com mais de 25 anos (este último é opcional, quem tem mais de 25 anos e quiser participar do seletivo geral, pode, sem problemas), que é apenas a prova de redação. A segunda etapa para o curso de Formação de Escritores consiste em um jogo literário. Nada muito difícil ou problemático.
Nosso curso ganhou o prêmio O Sul, Nacional e Os Livros como melhor Iniciativa Cultural de 2006.
Mas o que ninguém diz é o quanto esse curso mexe com quem inventa de se aventurar nele. De repente você se vê obrigado a escancarar seu texto. É, eu sei que é confortável escrever porcarias trancado no quarto, receber feed-back via email e ser elogiado por amigos e parentes. Mas isso não faz um escritor. Ou melhor, isso não faz, necessariamente, um bom escritor, consciente de sua obra.
O curso mexe com nossos medos, com nosso ego, com o que achamos que somos e com o que queremos ser.
Confesso os motivos que me fazem continuar, apesar dos pesares (financeiros, principalmente): finalmente um curso superior engloba todas as minhas áreas de interesse, finalmente tenho a oportunidade de mergulhar na literatura e conhecer o processo criativo e a experiência de gente como Zuenir Ventura, Moacyr Scliar, Milton Hatoum, Paulo Scott, Affonso Romano de Sant'Anna, Flávio Tavares e Ivana Arruda Leite, sem contar nossos professores fixos, como Carlos Gianotti, Márcia Duarte, Fabrício Carpinejar, Mário Corso, Walter Galvani e Flávio Vargas. Garanto a quem quer que apareça por aqui, é o melhor time com quem trabalhei até agora.
Além disso, eu sou masoquista. É, gosto de sofrer. Sou a maior crítica de meus textos, realmente não gosto deles, não me vejo como boa escritora, ainda que não saiba fazer outra coisa. É o tal do perfeccionismo idiota, que me faz detestar cada linha do que faço. Então entro em um curso onde toda semana tenho algum texto para fazer e mostrar aos colegas e aos professores. A parte boa é que vou aprimorando o texto, a parte ruim é que aprimoro também meu senso crítico e fico ainda mais exigente comigo mesma.
Me interesso bastante pela parte editorial, pelo trabalho de Agente Literário, só temo enveredar por esse caminho pelo medo de ter que encarar meu texto pelo resto da vida. Na verdade, o mais provável é que aconteça o contrário. Como estou sendo obrigada a expor meus textos sem o incrível conforto do distanciamento causado pela tela do computador, ou a insegurança vai embora na marra ou acabo saindo do curso.
Como a probabilidade de eu sair do curso é nula, é só aguentar firme e terei meu problema resolvido à força. Não tenho muito o que fazer, além de lutar contra minha vontade de sair correndo e assumir que é vontade de sair correndo, sem dar desculpas esfarrapadas. Sei que o melhor para mim é me enfrentar. Tornar a me esconder seria um baita retrocesso.
E aceitar que perfeição não existe, não adianta guardar os textos na mesma gaveta onde enterrei meus desenhos e minhas músicas, a gaveta do medo, do esquecimento, da insegurança.
Isso poderia ser encarado como uma propaganda negativa do curso? Não acho. Foi assim que eu enxerguei esse primeiro semestre de curso, não garanto que seja assim para todo mundo. Estou levando bem a sério desde o primeiro dia de aula, assim como o curso está me levando a sério desde o começo. Não é brincadeira, o objetivo é profissionalizar a criatura, fazer com que o indivíduo saiba o que está fazendo e por que está fazendo, entendendo o que fizeram antes dele.
Quem realmente gosta de escrever, gosta de desafios, gosta de idéia de aprimorar sua forma de escrever, se interessa em aprender, crescer, desenvolver, amadurecer e outros verbos terminados em "er". Não será um desabafo desses que impedirá esse indivíduo de matricular-se no curso. Quem gosta de escrever tem um parafuso a menos, e talvez me entenda.
Melhorar nunca é fácil. Para crescer, aprimorar o texto, desenvolver nossas capacidades, temos, muitas vezes, de quebrar nossas defesas, a idéia pré-concebida que temos do que somos, de até onde podemos ir. Isso dói um bocado, isso é difícil, é necessário uma boa dose de força de vontade, de coragem. É necessário, às vezes, fechar os olhos e se lançar, sem medo, esquecer que não era possível.
Ainda luto contra mim. Sei que meu maior inimigo está entre as minhas orelhas, junto de tudo aquilo que eu preciso para escrever.
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