Reflexões sobre falta de ética
por Vanessa Lampert
de Porto Alegre
[07/09/2007]
Na terça-feira fui ao Shopping Campo Grande com minha mãe, matar as saudades da terra natal. Na metade do passeio, fizemos uma pausa para tomar um lanche. Escolhemos o "Rei do Mate", conhecido por vender um copo cheio de pãezinhos de queijo [doze, para ser mais precisa] e, obviamente, chá de mate. Como não sou muito fã dessa bebida, olhei no cardápio e escolhi um "suco natural". Pensei, pensei e optei por um suco de maçã, gostoso e nutritivo. Gosto de sucos naturais, pois costumo dispensar o açúcar para sentir o gosto da fruta. Bem feliz, esperei, encostada no balcão da claustrofóbica lanchonete, enquanto minha mãe escolhia uma das mesinhas em frente ao Rei do Mate, próximas à Loja Riachuelo.
Estava curiosa para descobrir o quão natural era aquele "suco natural", estou mais do que acostumada a receber suco de polpa congelada como se fosse suco "natural". Aceito. Em último caso, a polpa foi fruta algum dia. Raro encontrar fora de cidades litorâneas lanchonetes que vendam suco de fruta fresca, como a Big Polis, no Rio [que saudade, que saudade...]. Não sou tão chata assim, não exijo tanto. Aceito suco de polpa congelada como natural, desde que não seja artificial, é claro. Não coloque corante, nem aroma artificial [ou o eufemismo "idêntico ao natural"] e eu já fico feliz.
Para a minha surpresa, a atendente tirou da geladeira uma caixa de suco Ades de maçã. Pára tudo. Ades é um suco de caixinha, à base de extrato de soja, com aromatizante para disfarçar o gosto do famigerado grão. Não disfarça. Ades de maçã tem gosto de Ades de maçã, não de suco natural de maçã, embora isso esteja entre seus ingredientes, de mãos dadas com o açúcar, o estabilizante pectina, o acidulante ácido cítrico e a água. Não importa o gosto. Era um suco de caixinha, uma desculpa industrializada para difundir o extrato de soja.
Não contente em despejar Ades de maçã no liquidificador, a moça colocou um pouco de água da torneira e abriu o refrigerador. Sem crer ainda no que meus olhos viam, resolvi esperar que ela concluísse o processo para entender se aquele era o meu pedido. Imaginei que agora, finalmente, pegaria a polpa congelada. Doce ilusão. Em vez da polpa, ela jogou alguns cubos de gelo dentro do copo do eletrodoméstico, acrescentou uma colher de açúcar refinado, bateu tudo muito bem, colocou em um copo e depositou na bandeja à minha frente.
Ainda incrédula, experimentei a bebida, para que meu paladar desmentisse meus olhos. Era mesmo Ades com açúcar. Um copo de 300 ml de Ades com açúcar, água da torneira e gelo sendo vendido como suco natural a três Reais. Eu adoro Ades, compro uma caixa de um litro no supermercado por, no máximo, três e quarenta. E sem o açúcar extra. Eu tive de perguntar à proprietária do estabelecimento, que atende no caixa, se aquilo era o "suco natural" deles. Ades com açúcar e gelo.
- Sim, é assim que são feitos todos os sucos aqui. - Ela respondeu.
- Mas isso não é suco natural! Você coloca açúcar em um suco industrializado que já vem adoçado e vende como suco natural? Eu imaginei que fosse pelo menos de polpa.
- É que polpa de maçã não existe. Não ficaria bom.
Não acredito, sinceramente, que essa senhora não tenha sido apresentada à polpa congelada de maçã, mas acredito menos ainda que ela não conheça pessoalmente a própria maçã. Fruta, já ouviu falar? Que tal bater indefesas maçãzinhas no liquidificador com gelo e água? Pelo menos valeria os três Reais por copo de 300 ml e não enganaria o consumidor. E qualquer fruta, qualquer polpa teria um gosto mais próximo do suco natural de maçã do que o Ades.
Cancelei o suco, bastante ofendida em minha inteligência. Não volto mais àquele lugar. Tentei entender o que leva alguém a enganar descaradamente em nome do lucro fácil. Ainda não consegui, confesso. Cliente enganado não volta. Cliente enganado não quer que seus amigos sejam enganados e faz propaganda contra. O que leva alguém a demitir a honestidade e preferir o engodo? Cliente respeitado gera novos clientes, volta outras vezes, gasta cada vez mais. Isso não é óbvio? Tentar a via do engano, do atalho, do caminho mais fácil é sempre a pior escolha. O que a dona do Rei do Mate do Shopping Campo Grande não sabia é que ela não estava me enganando, estava tentando se enganar.
Mentir para o cliente, tentar levar vantagem, preferir atalhar é comportamento cada vez mais corriqueiro em nosso país. Quem aceita esse tipo de atitude não pode reclamar dos políticos corruptos, da sujeira no alto escalão, não pode reclamar de que nada funciona direito no Brasil. Se a ética fosse respeitada no dia-a-dia, aqui em baixo, teríamos o reflexo disso lá em cima. Por que é tão difícil entender que uma coisa aparentemente pequena, como vender suco industrializado batido com água, açúcar e gelo tem como origem o mesmo defeito de fabricação [ou melhor, de cultura] responsável por desvios de dinheiro, fraudes na previdência e enriquecimento ilícito? Não coloquemos a culpa no capitalismo, ele e a ética coexistem harmoniosamente em muitos lugares.
Algumas coisas não podem ser relativizadas, não podem ser elásticas, a ética é uma delas, a honestidade e o esforço também, sem sombra de dúvidas. Isso nas relações comerciais, nas relações de trabalho, na vida familiar, no casamento, na amizade, na saúde... O caminho mais fácil não leva a lugar algum, um casamento feliz exige trabalho árduo, uma amizade sólida não se consegue do dia para a noite, sucesso profissional é conquistado com anos e anos de esforço, um bom preparo físico é resultado de muito treino, muito tempo de dedicação. Nada que venha fácil permanece. A "esperteza" de enganar o cliente revela-se uma grande estupidez a médio prazo. Por mais que se subestime o cliente eventual, é justamente ele que faz a diferença, principalmente quando não há possibilidade de fidelizá-lo. Qual é, então, a vantagem?

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