
Quase duas semanas sem postar. Tantas coisas boas acontecendo que o tempo acabou passando depressa demais, como sempre.
Quanto a Saramago, a quem me referi dia desses, encontrei uma saída para lê-lo. De agora em diante o livro vem acompanhado de um kit-Saramago: meus óculos e uma folha de papel vazada, por onde consegue-se ver uma linha de cada vez. Isso deixa o processo muito mais lento e cansativo, mas ao menos eu consigo enxergar algo mais do que dezenas de linhas embaralhadas, o que é uma grande evolução. Me irrita um pouco ter de ler devagar porque sou acostumada a ler tudo muito rápido. Não, não é leitura dinâmica, no way! Também não pulo linhas, palavras ou pontuação, leio tudo bem direitinho, só mais rápido do que o normal.
Adquiri esse hábito na escola, uma vez por semana (ou a cada quinze dias, ou uma vez por mês, não me recordo bem ao certo) a professora de português trazia uma caixa enooorme (não sei se era tão enorme assim...risos...) cheia de livrinhos. Nada demais, alguns paradidáticos, alguma coisa de literatura clássica obrigatória, infanto-juvenis e coisas do tipo. A gente podia ler quantos livros conseguisse naquelas duas horas. Acontece que essa caixa rodava todas as turmas e quando voltava à nossa sala, na semana seguinte (ou quinzena, ou mês, não me recordo), muitos livros não estavam mais ali. Não sei se estavam nas mãos dos outros colegas ou em suas mochilas, o fato é que se eu visse um livro legal, tinha que pegá-lo e ler imediatamente.
Aí eu sempre escolhia mais de um, ou melhor, mais de cinco. E nunca dava tempo de ler. Então comecei a prestar bastante atenção no que eu estava lendo para não perder o fio da meada e pegar um ritmo rápido de leitura. Em pouco tempo eu já conseguia ler todos os livros que pegava antes da hora de devolver. Só demoro para ler um livro se realmente não tive tempo de pegá-lo. Detesto ler um pouquinho, parar um pouquinho, ler mais um pouquinho....mas nos últimos anos o jeito tem sido fazer assim. Bons tempos aqueles em que dava para emendar um livro no outro sem respirar.
Dia desses li na Veja uma crítica do Millôr ao novo livro da Ana Maria Gonçalves, "Um Defeito de Cor". Fiquei, obviamente, com uma baita vontade de comprar (e ler), coisa que só não fiz até agora porque não encontrei em nenhuma livraria quando procurei. Li "Ao lado e à margem do que sentes por mim" da mesma autora, que na época fez publicação independente (agora está na Record), emprestado da Paula.
Li a primeira vez e detestei. Achei arrastado, irritante. Li a segunda vez (seguida) e adorei, quase chorei, senti cada parágrafo intimista na alma, e terminei o livro com uma vontade imensa de ter um para mim. Cheguei a escrever para a Ana Maria falando de minha vontade de adquirir um exemplar, mas não obtive resposta. Em todo caso, a leitura está disponível online, em seu blog .
Por isso nunca falo dos livros que leio, porque, fora o que é obviamente ruim, literatura é algo muito pessoal, é quase como falar de religião ou futebol. Não me sinto à vontade. Imagina se eu tivesse feito um texto enorme dizendo que detestei "Ao lado e à margem"? No dia seguinte teria que me desmentir, o que seria, pelo curto espaço de tempo, muito chato.
Fiquei feliz porque finalmente o Millôr está me incentivando a ler algo que preste, já que muito recentemente, por sua influência, acabei lendo "Por que me ufano de meu país", do conde de Afonso Celso, pois sua crítica negativa me deixou muito curiosa para ver a obra jurássica e dar umas boas risadas, que sem dúvida nenhuma, valeram a terrível experiência. Já tinha visto por alto, mas foi a primeira vez que li o livro de capa a capa, fazendo inclusive uma análise por escrito da coisa.
E só não comprei "Brejal dos Guajas", do Sarney, e "Dependência e Desenvolvimento na América Latina", do Fernando Henrique Cardoso, porque o que li em seu livro "Crítica da Razão Impura ou o Primado da Ignorância" foi o suficiente para me fazer ficar com nojo das obras assinadas por nossos ex-presidentes. Mas enfim, ao ler "Crítica da razão impura" li, por osmose, grande parte dos dois sofríveis livros que ele criticava.
Depois de ser praticamente obrigada pelo Millôr a ler, na íntegra, "Por que me ufano do meu país" (curiosidade dos infernos), decidi cortar relações com ele e ele figurou em minha lista negra por algumas horas. Agora preciso comprar "Um defeito de cor" para colocá-lo novamente em minha lista fúcsia, que é a lista de pessoas legais que me dão dicas incríveis. Claro que ele jamais saberá disso, porque duvido, sinceramente, que um homem hetero aprecie a idéia de ser incluído em uma lista fucsia.
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Foto de abertura: Kit Saramago.
Detalhe:
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